Esta noite passeio por lembranças, esta noite rebolo na nostalgia e a saudade abusa de mim.
Quando será que as minhas noites vão mudar? Quando será que elas vão passar a ser para fechar os olhos e dormir, descansar e sonhar?
Nunca fui de apreciar vulgaridades, mas, nesta coisa das noites é diferente, começo de facto a desejar que elas sejam vulgares, que apenas me deite na cama a uma hora considerada decente e adormeça.
A rotina é cansativa e ás vezes convinha-me o descanso, mas uma vez que me revelo um ser notívago, devo aproveitar o que a noite tem para me mostrar certo? Talvez  por isso, todas as noites afasto as cortinas que se estendem até ao chão do quarto e dou uma espreitadela no céu. É tão intrigante esse céu, com todos aqueles pontos brilhantes a que chamamos "estrelas" e toda aquela escuridão infindável, dá vontade de perguntar porque é que ele é assim, dá mesmo. Porque é que eu não lhe pergunto? Bom... porque prefiro ficar a questionar-me, olhando cada vez mais atenciosa, prefiro manter isto interessante e ir fazendo perguntas retóricas a quem passa na rua enquanto eu contemplo o misterioso céu.
Durante o tempo que passo com a cabeça de fora da janela a espreitar a noite, oiço os mais variados barulhos, ás vezes penso as coisas mais horríveis dos barulhos que oiço e imagino as piores cenas de terror e sorrio ao imaginá-las, mas de vez em quando também imagino cenas festivas, de animação, delicio-me com a minha imaginação, com as histórias que se criam dentro de mim.
Há também noites em que nada se ouve na rua, em que posso estar acordada até de madrugada, sempre pendurada na janela e nas ruas corre um constante silêncio que se torna incomodo.
Cada hora que passo na janela do meu quarto, me envolve mais na vida noturna, a vida noturna que faço dentro das paredes do meu quarto, a imaginar como seria fazê-la lá fora, fora das paredes da minha imaginação.
De repente aprecio as minhas noites invulgares.

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